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quarta-feira, 16 de junho de 2010

Nu no espelho

Naquela tarde, quando vi estes olhos no espelho eram duas pedras maciças congeladas por um fio de vidro. Todo o medo e insegurança estavam pintados nos cílios que não sabiam o que se passavam no movimento automático que enfeita o olhar assustado. Aí percorro as marcas, de coisas que tentei à força tirar de dentro que nunca passariam pelo buraco de uma agulha, pintas que falam da luz que já tive e que ficou impressa na minha cor. E toda vez que precisei me proteger dessa luz, eu apertava os olhos como se fosse chorar ou rir demais, para não ficar cega, deixando ver a incontinência que só aparece em extremos de pânico ou êxtase. Pés de galinha, pés de puta. Biscate, mulher da vida.

Quando vi este rosto caindo no chão com os cachos em volta e enrolado em lã, lembrando uma foto de uma dama antiga, por um instante percebi a beleza que saía dos olhos, poças fundas de barro. Ali no interior enxerguei duas lanternas piscando, e entendi daonde e por quê vem para fora: não consegui só me ver, veja só que curioso. Eu vi você, nu.


Achei que a beleza tinha algo a ver contigo, porque era isso que refletia. Muitas vezes eu me esqueço do contorno do seu rosto, por exemplo. Não lembro do conjunto. Mas... Fixo a memória do olhar nos pelos bem clarinhos, dourados, embaixo do seu nariz, em volta da boca, e a mancha da sua expressão, algo tinha que se dispor a um rosto tão doce, com as covinhas sorrindo que lixam os dentes alinhados e retinhos e me esqueço do resto. As pintas de leopardo nas costas, quando bate a luz e elas vem na minha direção e a pele de leite e espinhos macios que me espremem, e a voz de acorde que fala pelo nariz de onde sai o seu cheiro, ah, o cheiro que se enfia nos meus pêlos e cola no meu peito com epóxi como um corpo estranho.


Aí uma coisa fica suspensa no ar, uma pausa em semibreve. Já tentou segurar o ar por um tempo?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Mosca Morta

Cansada de ser feita de otária e sorrir para quem me joga para baixo, resolvi mudar essa lógica de comportamento que me faz ser tão malvada comigo. Mas para tanto, preciso definir meus parâmetros, e, (que ironia, por gostar tanto de ser tão incontida, tão sem limites) preciso re-conhecer o que me faz mau. É tanto tempo (29 anos) vivendo sendo educada ao extremo, boazinha demais, que é difícil começar. Pra quem é assim, escolher uma pizza é um tormento ("qualquer uma tá bom pra mim, já que eu não como carne...") fazer as vontades dos outros é fácil, difícil é saber das minhas.
Começo pelas cores. Gosto do amarelo ovo, gosto do vermelho sangue, do rosa chiclete, do azul turquesa, do verde bebê bem clarinho, do verde água quase azulão, do preto. Não gosto de verde oliva, não gosto do rosa antigo. Não gosto do azul marinho também (com concessões), não gosto de laranjão,(também com concessões) ou seja... que difícil! Como é difícil assumir o que não gosto. Mas é um começo. Me sinto como uma ameba que não vive, apenas existe, fagocitando as coisas que vê.
Dos sabores... eu gosto muito de comer... pizza de shitake. Gosto de lasanha e de macarrão, gosto de pão fresquinho. Adoro nescau, mas gosto de toddy também. Gosto de queijo e de chocolate latu sensu e gosto das combinações com queijo e com chocolate. E gosto de coisas saudáveis, como, arroz integral, feijão azuki, granola, coisas com soja - juro. Agora vamos lá: o que detesto é repolho cru, salsinha e couve de bruxelas. Também não gosto de maçã na maionese. Nem de cheiro de couve flor cozinhando.

Mas o que mais me dói é ser ignorada. Não ser amada do jeito que penso que mereço (ah, a vaidade e o orgulho). Mas quem é que vai gostar de uma ameba?